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Você já conhece a jornada do herói. Mas e a jornada da heroína?

Flávia Gasi, autora do livro Videogames e Mitologia, mostra uma reatualização da famosa estrutura narrativa dos mitos em evento da Women Up Games

· women up games,Eventos Internos,Mulheres nos games

Você já teve aquela impressão de que muitas histórias de filmes, games ou quadrinhos são, bem no fundo, parecidas?

Vamos pensar juntas: o protagonista vive uma vida cotidiana - até que recebe um chamado para uma grande aventura. Mesmo a contragosto, resolve partir nessa jornada. Após uma série de provações e encontros (com o sobrenatural, ou até consigo mesmo), alcança a grande conquista. Muitas vezes, faz o retorno ao seu local de origem - mas completamente mudado, após tamanha jornada.
 

De forma bem grosseira, essa é a estrutura narrativa escrita em um grande clássico da chamada “mitologia comparada”, publicado lá em 1949: O Herói de Mil Faces, do americano Joseph Campbell. Se você já pensou em escrever seu próprio roteiro de jogo ou passou pelos corredores de uma faculdade de Comunicação ou Letras, deve ter muito xerox de Campbell acumulado na sua gaveta!

Segundo o autor, esse é um tipo de narrativa que povoou os antigos mitos gregos. Incrivelmente, ele permanece até hoje: por exemplo, com o Frodo de O Senhor dos Anéis ou com o Luke de Star Wars. Todas são narrativas de coming of age - ou seja, uma passagem para a vida adulta, cheia de responsabilidades.

Só tem um problema nesses exemplos: onde estão as heroínas, na jornada do herói?

Foi isso que Flávia Gasi, autora do livro Videogames e Mitologia e doutoranda de Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, questionou. A pesquisadora, então, resgatou uma readaptação da teoria de Campbell para uma realidade cada vez mais presente nos games (ainda bem!): a presença de personagens femininos. Essa proposta tem como principal expoente a autora Maureen Murdock.

Podemos tomar como exemplo Alloy, do jogo Horizon Zero Dawn, ou a repaginação de Lara Croft, de Tomb Raider. Nos filmes, temos heroínas como Moana, da Disney.

Então, a época não poderia ser melhor para embarcar no mundo dos roteiros. “Estamos em um momento de descobertas nos games, e isso é muito legal. Há um campo a ser descoberto”, analisa Flavia.

A convite da Women Up Games, Flavia falou sobre a “jornada da heroína” em um workshop realizado na semana passada, na FIAP, em São Paulo

Lá, recebemos diversas meninas e mulheres que têm em mente roteirizar e/ou desenvolver um jogo com protagonistas que se identificam com o gênero feminino - mas estavam em dúvida sobre como progredir com a caracterização dessas personagens e com o próprio desenrolar do enredo (veja as fotos aqui!). 

Então, que tal fazer como elas e aprender como se faz uma jornada da heroína? Veja um resumo do conteúdo que Flavia Gasi apresentou:

1. A dissociação do feminino

O primeiro passo para a jornada da heroína é a sua separação do “feminino”: ou seja, não aceitar aquilo que lhe foi imposto.

Aqui, cabe notar que o feminino, na sua história, não precisa ser necessariamente aquilo que nós já conhecemos de acordo com nossa sociedade atual: o arquétipo de sentar de pernas fechadas e usar saia, por exemplo. Na sua história, esse feminino pode representar qualquer padrão imposto quando ela nasceu, por seus pais e pelos outros em geral.

O lado masculino, pelo contrário, seria o lado que ela busca: é o que difere de quando ela nasceu. O importante aqui não é o que é feminino e o que é masculino, exatamente; basta haver um mundo com dois pólos para que sua narrativa siga em frente.

A Flavia, para fins de simplificação, considerou no nosso workshop que o feminino seria o ideal presente na sociedade que conhecemos. “Ela pode considerar, por exemplo, que ser feminina é ser frágil, e por isso ela sempre preferiu ser amiga dos meninos. Quem nunca ouviu isso?”.

Mas, como logo veremos, esse desprezo do feminino e a identificação com o ideal masculino são uma saída simplista demais para nossa jornada.

2. Estrada de provas e ilusão de sucesso

Nesta etapa da história, nossa heroína abandona o mundo que conhecia e se sente realizada ao se dissociar do ideal feminino que lhe foi imposto. O mais provável é que ela se cerque de aliados que se identifiquem com o gênero masculino.

A protagonista teve de abandonar quem era quando menina para criar essa nova persona e agora deve conquistar muitas lutas para afirmar esse crescimento e essa nova “dignidade”. Com o desenrolar do enredo, cada vez maiores devem ser suas vitórias - afinal, seus aliados a julgarão. 

Mas, com isso, nossa heroína tem uma percepção errônea sobre si mesma, diz Flavia. “As ações não são focadas no que ela é ou quer, e sim no que ela acha que precisa mostrar. Em breve, ela começará a pensar: ‘É isso mesmo que eu quero fazer, sair decepando muitas cabeças?’”, questiona. “Isso não importa, neste momento. Por isso dizemos que ela funciona como um espelho de seus aliados, identificados com o masculino. Para saber quem é a heroína nesta etapa, basta olhar à sua volta.”

3. A descida

Depois de derrotar tantos monstros, a heroína percebe que nenhuma estratégia masculina parece ser suficiente. Surge um vazio existencial: algo está faltando. Ela completa missões e tudo parece bem, mas nada a deixa plena de verdade. Ela não se reconhece nos aliados, nas vitórias e nem em seus inimigos.

“Isso porque todos somos seres complexos: não conseguimos nos associar a uma coisa só, como o ideal masculino ou feminino. Mesmo que quiséssemos”, explica Flavia. “Então, ela começa a se questionar: ‘há lugar para mim no mundo?’. Esse é um dilema que muitos bissexuais enfrentam hoje em dia, por exemplo.”

Agora, é a hora da descida (na teoria de Campbell, a etapa da “barriga da baleia”). Pode ser um acontecimento externo ou interno: o que importa é a protagonista ter o desejo de cair; ou seja, é uma tomada consciente de ação. 

Ela tem que decidir que ficará sozinha, mesmo que seus aliados questionem sua decisão. É sua caverna metafórica, em que ela procurará por si mesma, já que não se reconhece mais.

“Esse é um ambiente muito comparado ao útero: é um lugar em que podemos morrer e renascer, ou seja, virarmos uma outra pessoa. É um momento de metamorfose metafórica.”

4. O encontro com a deusa e reconciliação do feminino

Um outro momento de virada é o “encontro com a deusa”: uma entidade sobrenatural que tem o papel de auxiliar a protagonista em seu autoconhecimento. A deusa deve simbolizar, aqui, a verdadeira natureza do feminino. 

Como já dissemos, essa natureza pode ser o que você quiser: a única condição é ser diferente e mais complexo do que aquilo que a protagonista achava ser feminino no começo da sua história. É o melhor daquilo que a heroína deixou para trás. No nosso exemplo, o feminino deve ser mais do que ser frágil.

A partir desse encontro com a deusa é que nossa personagem pode renascer de verdade. “Essa é uma das etapas mais difíceis de se representar, quando se fala em jornada da heroína”, diz Flavia. “Isso porque não há muitos exemplos a serem seguidos: a gente sempre lê histórias de como meninos se tornam, de repente, heróis. Mas como representar o amadurecimento de meninas em heroínas? Para isso, temos de pensar em modelos que vão além da jornada do herói. Por exemplo, em sororidade”, diz Flavia.

5. Reincorporação do masculino e união final

Mas algo acontece - algo que não era esperado pela heroína e que não pode ser resolvido da maneira como ela agia até então.

E aí que nossa protagonista entende que o masculino será uma parte dela, assim como um feminino. Ela cumprirá sua missão final não pela glória, mas por escolha própria, por recompensas emocionais (a conexão consigo mesma). 

Ela não quer mais ganhar nada material, e sim sua existência como um ser complexo: é uma união entre dois mundos, integrando o sagrado feminino e o sagrado masculino. Nossa heroína pode decidir, depois, qual aspecto será mais predominante. Mas, nesse momento, o grande objetivo é acabar com dualidades, a ponto de o mal talvez nem existir: bem e mal seriam parte de um mesmo ente. 

A protagonista percebe que era muito mais do que pensava - e talvez você também perceba isso em sua própria vida. Afinal, essa é a magia de uma história com heróis e heroínas. “Uma boa narrativa lembra para as pessoas que elas são mais do que achavam que eram no começo”, resume Flavia. 

Você prefere aprender por meio de vídeo? Gravamos também um trechinho da palestra da Flavia Gasi:

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